Matéria de Felipe Lobo, publicada no site O Eco.
O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (SC) recebeu, na manhã desta quinta, o golpe que faltava para perder uma fatia considerável de seus limites. E os responsáveis pelo feito, desta vez, não foram os tratores e motosserras que levaram Santa Catarina ao tricampeonato do desmatamento na Mata Atlântica, mas o governador do estado, Luiz Henrique da Silveira (PMDB). Tudo feito com base em um projeto de lei que desejava mudar a categoria de aproximados 10% da unidade de conservação para Área de Proteção Ambiental (APA). Hoje, o político tratou de usar a caneta para sancionar a determinação aprovada pela Assembléia Legislativa.
A história da maior unidade de conservação do estado, que ocupava até as nove horas e trinta minutos deste 26 de março cerca de 90 mil hectares, começou na década de 1970. Mas sua importância ecológica vinha de muito antes e era salientada pelo padre Raulino Reitz, botânico famoso em todo o mundo e que presidia a Fundação de Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma) à época. Principalmente a região da planície costeira de Massiambu, onde há restingas.
“Ele sempre chamou o espaço de laboratório natural. Afinal, é lá que acontecem diversos fenômenos recentes geológicos e de formação da vegetação”, explica João de Deus Medeiros, diretor de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Luiz Henrique da Silveira provavelmente nunca ouviu falar no padre Raulino. Afinal, a área vista pelo sacerdote como habitat de diversas espécies e inadequada para a ocupação humana é, justamente, um dos locais que perderam o status de proteção integral.
O mais curioso, no entanto, é a sua descrição no site da Fatma, órgão que aceitou passivamente a recategorização. “Na planície costeira do Massiambu pode-se observar um monumento mundial da geologia formado por cordões semicirculares arenosos da restinga”, diz um trecho do texto.
A fatia do parque começou pouco depois de sua criação. Ainda corriam os anos 1970 quando teve início um grande processo de especulação imobiliária que encheu as praias da Pinheira e do Sonho – dentro dos limites do parque – de ocupações irregulares. Na década seguinte houve uma revisão do perímetro da unidade graças à omissão do governo estadual e da prefeitura de Palhoças, município em que ela se situa. “Com isso, toda a faixa de praia tomada pelo homem, ao lado da planície de Massiambu, foi retirada da Serra do Tabuleiro”, conta Medeiros.
Convívio problemático
A população que adquiriu casas de veraneio nas praias da Pinheira e do Sonho continuava insatisfeita, já que o Ministério Público promovia ações para retirá-la. Aproveitando-se do imbróglio, Renato Sehn, dono de umapousada na ilha de Papagaio Pequeno - entre as duas praias - mobilizou a comunidade e explicou que os problemas acabariam caso toda a planície fosse retirada do parque e transformada em APA, afirmou Medeiros, do MMA, a O Eco. As residências construídas na primeira porção de terra que mudou de categoria estavam em Áreas de Preservação Permanente (APP). Era essa a reclamação do Ministério Público.
“Sehn convenceu a todos que a solução era desmembrar o Parque da Serra do Tabuleiro, mas isso não fazia sentido, uma vez que eles já estavam fora. A verdade é que ele construiu sua pousada na década de 80 dentro de uma das ilhas costeiras. Ela é que está dentro da unidade de conservação”, diz o diretor do MMA.
O novo mosaico do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, assinado hoje pelo governador, é uma cópia da proposta de Sehn e sua equipe.
Durante o processo, a Fatma chegou a contratar uma consultoria com recursos do banco alemão KFW (que deveriam ser usados em melhorias da unidade de conservação) para analisar o pedido. Ao notar que o corpo técnico caminhava para uma solução final que não o interessava, Sehn encaminhou o projeto de lei que achava mais adequado. Foi este o aprovado pela Assembléia e por Luiz Henrique da Silveira, provavelmente encantado com as possibilidades econômicas que virão nas entrelinhas da recategorização.
A partir de agora, o Ministério Público está estudando a extensão das alterações e se houve mudanças substanciais entre o projeto de lei que foi apresentado em consultas públicas e aquele que entrou em vigor. À frente do caso estão o doutor Luis Eduardo Couto, promotor de justiça de Florianópolis e chefe do Centro de Apoio Operacional do meio Ambiente, e a Coordenadoria de Controle da Constitucionalidade.
Há, por enquanto, apenas uma certeza: a Fatma terá de atualizar o seu site. Lá, encontra-se o seguinte texto: “Dentre os onze habitats principais identificados num estudo recente realizado pelo Banco Mundial/Fundo Mundial para a Natureza (WWF) para a América Latina e o caribe (LAC), cinco deles ocorrem no Parque: florestas tropicais úmidas de folhas largas, florestas tropicais de coníferas, restingas, campos de altitude e manguezais”. A partir de hoje, isso é apenas meia verdade.
Procurado pela reportagem, o órgão ambiental de Santa Catarina não retornou as ligações. Até o fechamento desta matéria, Renato Sehn não havia sido localizado. Em 27 de março, dia seguinte à publicação da mesma, foi encontrado, mas não quis se pronunciar por telefone sobre o assunto.
Comentários
Renato em 30/03/2009 às 08h22
Só tenho uma palavra para traduzir meu desprezo a este falso órgão ambiental: absurdo. Espero que as entidades de classe (OAB, por ex.), ONGs e o Ministério Público façam seu papel e tentem reverter essa situação.
Natureza em 30/03/2009 às 19h44
Após trabalhar alguns anos em um Gabinete de Secretário de Estado, tive a certeza que a FATMA nada mais é do que uma autarquia cheia de cabides de emprego.. onde se legitima as intenções do nosso NADA preocupado com o futuro e Governador. GRANDE PERDA PARA O NOSSO ESTADO.
elizabeth sefton sehn em 20/07/2009 às 18h20
Muito importante a recategorizaçao para toda populaçao que estava sendo ameaçadas e tratadas sem respeito
Importante sim reconhecer o trabalho exemplar de preservaçao feito por Renato na Ilha do Papagaio
Pessoas como ele que realmente cuidam e preservam exemplarmente o meio ambiente deveriam receber creditos e serem reconhecidos como guardioes da natureza .... Parabens mais uma vez !!!
Josué Antonio Cardoso em 24/08/2009 às 13h04
grande perda para nosso estado mesmo!
Aluno em 23/09/2009 às 13h29
Bem, concordo com preservação, antes da década de 70 vinha se falando do parque, no entanto famílias que moravam e moram até hoje nunca foram indenizadas e estão até hoje esperando para ser colocadas em outra região que possam produzir e continuar suas vidas dignamente, hoje simplesmente o MP entra na região do parque e diz que não pode fazer mais nada, pessoas nativas que vivem de pequenas culturas e criações de animais para consumo, então o MP esta autuando os nativos que não podem mais ter animais pois o "Coco" do Boi contamina o Solo.
Senhores, vão me desculpar, mas então teremos que parar com a produção de carne bovina no País todo. isso é um absurdo. Além disso vem uma pessoa e tira uma foto da beira mar onde nem se que tem construção, porque não tirou foto onde moram pessoas dignas e trabalhadoras; quanto as casas destas prais citadas são iguais as mancões nas prais da Capital, lá ninguém tira foto, do Shopping construído encima do mangue, ninguém fala mais nada. Engraçado!... e muitas outras obras piores que essas, Isso o MP ignora. A igualdade e dignidade são princípios constitucionais a todos o Brasileiros.
julia em 19/10/2009 às 15h36
deveria colocar fotos
Alceo Magnanini em 28/11/2009 às 21h47
Fui amigo e colaborador do Padre Raulino Reitz, botanico de renome mundial que já está esquecido no passado da memória catarinense. Mais ainda, fui o coordenador da equipe da FEEMA que em convênio com a FATMA que estava sob direção de Reitz, apresentou ao governador o Plano Diretor do Parque Estadual da Serra do Taboleiro e que foi aprovado com louvores em processo assinado pelo governador. O que se fez e se está fazenldo é um crime contra o patrimonio estadual, federal e da humanidade nesse processo de diminuição ou anulação das nossas Unidades de Conservação da Natureza. Até me vem ao pensamento a ideia de deixar que acabem logo com tudo: Constituição, Código Florestal, cidadania, respeito à boa qualidade de vida, flora nativa, animais indígenas, paisagens, sítios arqueológicos e só respeitar os dinheiros de toda ordem (reais,dolares, euros, ienes, etc). Pois não é isso que estão fazendo às escondidas ou às claras?
Para mim, aos oitenta e quatro anos, acabei sendo convencido que é verdadeiro aquele dito de que "cada povo tem o governo que merece"
André Campos em 03/02/2010 às 16h58
O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro é de vital importância para a conservação dos recursos naturais de Santa Catarina. Isso é um fato incontestável. Entretanto, vale lembrar que existem famílias que moram no interior da área do “parque”, mais especificamente na Vargem do Braço. Essas famílias sofreram por mais de trinta anos com a indecisão sobre indenizações. Conheço algumas dessas famílias pois moro em Santo Amaro da Imperatriz e meus pais saíram da Vargem do Braço pois não poderiam nem mesmo pintar a porta da casa de meus avós. Imaginem a seguinte situação: famílias trabalhadoras, que sobrevivem da agricultura, trinta anos atrás. Imaginem chegar em sua comunidade e num ato de terrorismo psicológico dizer que todos serão retirados de suas casas pois a região se tornou um Parque. Todos serão indenizados e não podem mais pintar ou reformar as suas casas pois estão em um parque. Os filhos não podem mais construir uma casa no único terreno da família pois a região é um parque. Imaginem o que os filhos, trinta anos atrás pensaram: Vou sair daqui, ir para outro lugar pois nessa comunidade não posso mais trabalhar ou morar. Houve uma grande evasão da região, pois os filhos eram multados pelos fiscais do meio ambiente caso tentassem construir uma residência. Até hoje, trinta anos depois, a comunidade da Vargem do Braço não foi indenizada!!!!!!!! Isso é uma situação horrível. O poder público foi extremamente perverso pois não indenizou ninguém e indiretamente obrigou as pessoas a sair da região. Se houveram recursos para indenização na região esse dinheiro foi simplesmente desviado.
Enfim, como algumas famílias iriam sair da região elas pensaram: "vou vender nossa terra para quem oferecer um bom dinheiro, pois se recebermos indenização esse dinheiro será pouco para o padrão de vida de um centro urbano". Muitas famílias venderam as terras que possuíam escritura pública para outros mais ricos. Por isso hoje na região da Vargem do Braço afirmam que erguem-se mansões, mas os atuais proprietários não tomaram posse ou invadiram a região. Eles simplesmente adquiriram uma propriedade legalmente, com escritura pública. Como não houve indenizações, legalmente a região não era um parque e isso é lógico. Se você compra um terreno que não foi indenizado, que não é parque, você pretende fazer algo nele. Aqueles com grande poder aquisitivo construíram casas mais bonitas.
Enfim, para resolver os problemas do Parque (que duravam mais de 30 anos) foi proposto o projeto mosaico. Esse projeto foi aprovado e foram criados um Parque e três APAs. Agora sim, a região está legalizada, pois as terras que não possuem escritura pública são Parque e as que possuem escritura pública estão nas APAs. A região que é Parque deve ser totalmente cercada para que não ocorram invasões. A região que é APA deve ter leis para regularizar a ocupação do solo, impedir loteamentos, regularizar a agricultura, enfim, dar a segurança jurídica que todos os cidadãos merecem. E é preciso existir uma fiscalização na região, isso eu concordo plenamente.
Sobre a água da Grande Florianópolis: Em um Parque de proteção integral não pode existir nenhum tipo de extração mineral. Ou seja, a água dos Pilões não poderia ser retirada pela CASAN caso não fosse paga uma indenização para a FATMA. De onde sairia esse dinheiro? É claro que do bolso dos consumidores da região da Grande Florianópolis. Para onde esse dinheiro iria? Bem, todos já devem imaginar o destino. É possível preservar a água dos Pilões e a região da Vargem do Braço sem precisar causar transtornos para ninguém. Temos um exemplo da Cidade de Nova York e das Montanhas de Catskill. Lá funcionou e é uma megalópole, porque no Brasil não funcionaria com Florianópolis? Estamos assumindo que não temos condições de gerenciar nossos próprios recursos naturais se não encontrarmos uma solução para esse problema do Tabuleiro. Como então queremos encontrar a solução para a Amazônia? Uma região tão importante quanto a Mata Atlântica.
No meu ponto de vista, o projeto mosaico é uma boa solução para o problema e existe solução para resolvermos o problema da água na Vargem do Braço. Existe outra solução: Indenizar toda a região mas essa indenização deverá ser muito, muito alta, devido ao terrorismo psicológico sofrido pelas pessoas ao longo de mais de trinta anos. E com a justiça do Brasil, até sair a decisão final levaria mais 30 anos!!!!!!
Apenas para deixar mais uma informação: soube que na Vargem do Braço existe uma associação com plantações ecológicas. Aqui vai o link para a notícia:
http://www.radarsul.com.br/santo_amaro/recanto-natureza.asp
A associação é Recanto da Natureza.
Espero ter contribuído para explicar mais sobre o drama da região da Vargem do Braço
Pela vida! em 16/09/2010 às 13h55
Renato Sehn...noção! É uma pessoa extremamente oportunista, que não tem representatividade e legitimidade perante as comunidades do entorno do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. O que ele e sua corja fizeram foi comprar as pessoas ás custas de falsas informações e dinheiro sujo.
Alguém acha que ele entra na Guarda do embaú? só se for para sair morto!