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A dor que nunca passa

Autor: Marina Silva.Portal TERRA | Publicado em 03/12/2008.

Danos da enchente em Blumenau. Foto: Divulgação

A dor que nunca passa

Marina Silva
De Brasília (DF) - Portal Terra

Nos anos 1970, quando abriam a BR-364 no Acre, ela cortou ao meio o Seringal Bagaço, onde eu morava com minha família. À derrubada da mata seguiu-se uma epidemia violenta e incontrolável de sarampo e malária.

Era gente doente ou morrendo em quase todas as casas. Perdi um primo e meu tio Pedro Ney, que foi uma das pessoas mais importantes da minha infância. Morreu minha irmã de quase dois anos e, quinze dias depois, outra irmã, de seis meses. Seis meses depois, morreu minha mãe. Tudo era avassalador, assustador. Uma dor enorme, extrema, que nunca passou. Para sair disso, tivemos que reconstruir, praticamente, o sentido inteiro do mundo. Aceitar o inaceitável, mas carregá-lo para sempre dentro de si. Ir em frente, enfrentar a dureza do cotidiano, sobreviver, cuidar dos outros. Viver, enfim, e dar muito valor à vida e às pessoas.

Em 1985, numa das maiores enchentes do rio Acre em Rio Branco, eu morava no bairro Cidade Nova, na periferia da cidade, numa pequena casa de onde tivemos que sair às pressas, levando o que foi possível numa canoa. O resto foi levado pelas águas, inclusive o único retrato que tínhamos de minha mãe.

Penso agora nisso tudo e acho que consigo entender o que sentem os catarinenses, mas ainda estou longe de alcançar o significado estarrecedor de uma perda tão total e instantânea como a que sofreram.

Na escuridão, o morro descendo, destruindo tudo, a busca desesperada pelos filhos, a impotência. E, depois, descobrir-se só em meio ao caos: acabou a casa, foram-se as pessoas amadas, o lugar no mundo. Não há mais nada, só a vida física e a força do espírito.

Meus filhos andam pela casa com todo vigor, com toda a beleza da juventude, e sequer consigo imaginar o que seria, de uma hora para outra, vê-los engolidos pela terra, debaixo de toneladas de escombros ou mutilados para o resto da vida. É algo terrível demais até no plano da imaginação. Fere a própria alma tão fundo que chega a ser impossível entender plenamente a profunda tristeza de quem enfrenta essa realidade.

Na Londres de 1624, os sinos da catedral de São Paulo, onde o poeta John Donne era o Deão, tocavam quase ininterruptamente anunciando as milhares de mortes causadas pela peste. Atingido por grave enfermidade (que chegou a ser confundida com a peste) Donne escreveu então um de seus textos mais conhecidos, a Meditação XVII: "Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de teus amigos ou mesmo tua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."

Hoje, no mundo, os sinos dobram por todos nós e para nos acordar. Grandes desastres podem virar acontecimentos corriqueiros. Não se pode afirmar peremptoriamente que a tragédia de Santa Catarina deriva, em linha direta, das mudanças climáticas identificadas no relatório do IPCC, o Painel Internacional de Mudanças Climáticas da ONU. Mas em tudo se assemelha às previsões de possíveis impactos da mudança no clima do sul do Brasil, até o final do século 21.

A natureza, numa pedagogia sinistra, parece exemplificar o que significam esses fenômenos extremos que, em várias regiões do planeta, tenderão a provocar períodos de seca muito mais severos e outros com precipitações intensas.

As ações de mitigação necessárias e as adaptações para enfrentar esses efeitos e reduzir nossa vulnerabilidade diante deles ainda são precárias e estão atrasadas. Os países ricos, detentores de recursos, conhecimento e tecnologia, já avançam em medidas para se proteger. As piores conseqüências deverão recair sobre os países pobres e os em desenvolvimento. A urgência é auto-explicável. Não é um cientista quem o diz e nem um livro. É a natureza, cujos avisos e alertas têm sido insanamente ignorados.

O Brasil, que ontem lançou o seu Plano Nacional de Mudanças Climáticas, não tem como deixar de fazer a sua parte, mesmo sem os meios disponíveis nos países ricos. O acontecido em Santa Catarina é um sintoma e deve ser seguido de um esforço de grandes proporções, de início imediato, para tentar evitar que se repita.

É preciso que cada um de nós, autoridades públicas, empresas e cidadãos, pensemos nos mortos, nas famílias inteiras soterradas, nas vidas destroçadas debaixo do barro, antes de sermos tolerantes com ocupação em encostas, com destruição de matas ciliares, com o adensamento de áreas de risco, com mudanças de conveniência nas legislações. Não há mais espaço para empurrar os problemas ambientais com a barriga, como tentam fazer alguns, e deixar para "o próximo" o ônus de medidas ditas antipáticas. A omissão que ceifa vidas humanas tem que acabar, mesmo à custa de incompreensões.

Nos tempos atuais, há mais um componente na agenda ética: não se deixar corromper diante das pressões para ignorar a proteção ambiental e as medidas de precaução exigidas pela intensificação dos fenômenos naturais. Quem detém algum tipo de representação pública deve se convencer de que é preciso mudar profunda, rápida e estruturalmente os usos e costumes, de modo a preparar o País para um futuro de sérios desafios ambientais. Cada vez mais, não é só uma questão de errar, corrigir o erro e aprender com ele. Agora a palavra de ordem é prevenir o erro, para que não se repitam os olhares perdidos, os rostos esvaziados, o choro inconsolável, a desesperança e as mortes que vimos nesses últimos dias em Santa Catarina.

Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Comentários

Renato Cabral Bossle em 04/12/2008 às 10h02
A Marina será nossa eterna Ministra do Meio Ambiente! Suas palavras ecoam fundo mesmo nas almas mais endurecidas. Somente uma pessoa que passou por algo semelhante pode ter uma pequena noção do que meu povo está passando. De fato, enquanto persistir as ações de desenvolvimento a qualquer custo, corrupções e outras barbáries que fazem com o nosso meio físico e biótico, veremos mais situações deste tipo, infelizmente. Marina morena, Marina querida, que Deus te abençoe. Um dia terei o privilégio de te conhecer e, humildemente, te pedir um abraço! Renato C. Bossle - São José dos Pinhais, PR

tadeu santos em 04/12/2008 às 12h15
Esta carta deveria chegar ao governador LHS para convencê-lo a retirar o PL 238/08 e pedir desculpas aos catarinenses pela idiotice da proposta!

Maria Chantal Amarante em 04/12/2008 às 14h17
Devemos nos unir para que consigamos um Plano Nacional do Meio Ambiente de Melhoras nas Mudanças Climáticas que seja afetivo e responsável com um planejamento de prevenção.

Carlos Alberto Pereira de Campos - Porto Feliz em 04/12/2008 às 14h35
Marina Silva é realmente uma mestra... Tem a força necessária para a luta e a conquista; e a ternura e simplicidade de uma grande mulher... Ela sempre esteve acima da mesquinharia e da pequenez tão evidentes nas entrelinhas do poder, e provou sua dignidade quando não se sujeitou mais aos interesses que insistiam em estar acima da causa ambientalista. Em suas palavras percebemos claramente que o custo pela irresponsabilidade ambiental é muito alto para se pagar. É o custo de vidas! E VIDA está acima de tudo!

Urbano Schmitt Júnior em 04/12/2008 às 15h31
As palavras Tuas, Marina, são palavras de sabedoria que não cabem na cabeça, no cérebro dos plantonistas do poder de Santa Catarina (LHS e os seus). Estes estão aí jubilosos com os recursos federais colocados à disposição dos governos estadual e municipais e os vão usar mais uma vez para se promoverem políticamente perante a população ingênua e fragilizada. Como diz o Governador - vai primeiro recuperar o turismo - que insensibilidade!. Para ele, essas palavras da Marina são como "pérola aos porcos".
De nossa parte Marina, vamos tentando te imitar na luta pela vida.

Isabel Cristina Pereira em 04/12/2008 às 17h12
Infelizmente o que está acontecendo é o seguinte: as grandes autoridades deveriam dar o exemplo de educação ambiental ao povo para que este, saiba como cuidar melhor do meio em que vive.
e outra, isto está acontecendo porque é a resposta da mâe natureza que está sofrendo com as ações do homem. Grandes potências estão mais preocupadas em criarem bombas, desmatamentos sem fim enquanto muitos estão passando fome, sem direito a saude, a um saneamento básico adequado. até quando teremos que suportar tudo isso? o povo tem que reagir e dizer basta, nós cidadãos temos os nossos direitos e requerê-los.

Flávio XAvier em 04/12/2008 às 22h19
DEsenvolvimento econômico com alto custo ambiental não é mais "desenvolvimento": pena que na briga entre as duas maiores mulheres do governo Lula, tenha vencido a mulher do desenvolvimento econômico (Dilma) e não a do desenvolvimento ambiental (MArina).

MARCOS BOETTCHER em 05/12/2008 às 08h24
O sistema Político Governamental de nosso País é uma farça. Não se faz Política e não se tem ações governamentais com verdadeira prioridade ao bem comum, ao que mais interessa e agrega ao País. Prova disso foi a saída da Senadora Marina do Ministério do Meio Ambiente, mesmo sendo do "PT". Temos muito o que aprender na democracia e tudo tem seu preço e muitas pessoas pagaram, estão pagando e ainda vão pagar, infelismente. Mas temos muita coisa pra mudar e dar certo; as pessoas de bem, e essas tem que fazer a diferença, mesmo que muitas se perdem pelo caminho. Parabéns Marina, continue fazendo sua parte, já fez e pode fazer muito mais ainda. Forte abraço ! Marcos Boettcher - Contador - Joinville - SC.

Eliane Seixas Hanna em 09/12/2008 às 23h14
Muitos morreram, morrem e ainda vão morrer até que a insanidade dos governantes, ruralistas e afins entendam que o Brasil começou a perder suas rirquezas com a derrubada da primeira árvore. Quem assisti às cenas da catástrofe de Santa Catarina constatam morros desmanchando, e pergunto: onde está a vegetação que antes "segurava" a terra ali? É tão fácil de entender, ou é preciso sofrer para aprender? Mas como o tempo em que, nas guerras, os chefes iam à frente da tropa já passou, nós, o povo, vamos sofrer. "Os inocentes pagarão pelos culpados". Marina, obrigada por existir e por toda esta Sabedoria que passa para todos nós; pena que muitos estejam de olhos e ouvidos fechados. O que podemos fazer para ajudar a salvar o estado de Rorâima dos "falsos fazendeiros" que estão roubando a terra de novo dos reais proprietários?

Maysa Blay em 10/12/2008 às 10h58
O texto de Marina é o mais sincero, lúcido e importante dos muitos textos que já li e tratam da questao ambiental. Que difícil é dizer, como ela o faz citando Donne, que somos todos parte do mesmo mundo, da mesma humanidade. Que citacao feliz! Como caímos fácil nos bairrismos territoriais da história. É tempo de acoes duras e "incompreendidas", como diz Marina. É tempo de desafiar os que dizem que consumir é a solucao, que dizem que "todo brasileiro ainda vai ter uma carro". Precisamos ter coragem e este texto nos inspira. Grandíssima Marina

LIZALDO VIEIRA DOS SANTOS em 11/12/2008 às 23h22
Esse belo texto só poderia sair de alguem que tem amor, sentimento, alma, coração e paixão pela vida e acima de tudo amor ao próximo e ao meio ambiente.
Só podiria ser da nossa eterna ministra do meio ambiente brasileiro, Marina Silva. Essas calamidades não são do acaso, apenas vão se repetir aqui e alí, somando-se com a nossa eterna calamidade das secas do nordeste.

Maria Cristina Forti em 12/12/2008 às 09h36
Esta carta deveria chegar às mãos de nossos legisladores, governantes e juizes para que ouçam as vozes que clamam contra a ocupação predatória de nossas nascentes e encostas: vejam as encostas da Mata Atlântica em São Paulo e Rio de Janeiro! Dizem que é um problema social. Em breve esse "problema social" poderá se transformar em uma catástofre!
Espelhemo-nos nos sentimentos da Sra Marina Silva e de tantos cidadãos brasileiros que passaram por essa dolorosa experiência. Não esperemos para mostrar nossa indignação.

Antônio Lopes em 01/05/2009 às 19h40
Marina Silva pode ser interpretada como "semente de esperança." A dor que nunca passa é ferida que sangra não só em seu coração, mas em todos queles que percebem a destruição acelerando o fim. Temos um governo que está em seu segundo mandato e não vemos eficiência no combate às agressões ambientais. Fiço aqui meu particular apelo ao Sr Presidente da Repúblico. - Lula, aprovo muitas coisas de seu governo, mas gostaria que atentasse mais para o meio ambiente. Muito mais do que arroz e feijão, teu povo precisa respirar.

Antônio Lopes- Cientista Social, Diretor de Teatro e autor da peça Plante Eco- Teutônia-RS- e-mail tiotonycultura@yahoo.com.br

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