
22.07.2008
A
partir de amanhã, proprietários rurais de todo o País têm 120 dias para
registrarem suas reservas legais em cartório e junto aos órgãos
ambientais estaduais. A novidade é que a desobediência será premiada
com multa. Quem desmatou deverá fazer acordos para recuperar o que
destruiu. Essa é uma das medidas que o governo embutiu nas alterações
da Lei de Crimes Ambientais, que serão publicadas em decreto nesta quarta (23).
No entanto, o prazo de 120 dias parece ser ainda uma divergência dentro
do governo. Enquanto a Procuradoria-geral do Ibama informou ser esse o
prazo, o presidente do órgão, Roberto Messias, falou em 180 dias e até
em um ano.
Reservas legais são porções de floresta que propriedades
rurais são obrigadas a manter. Na Amazônia o índice é de 80% e, no
Cerrado, de 35%. Nas matas de transição entre esses dois biomas deve-se
conservar 50%, enquanto no restante do País a taxa é de 20%. Nas
regiões mais economicamente exploradas, como Sudeste, Sul e
Centro-Oeste, é raro se avistar essas matas.
O presidente do Ibama, Roberto Messias, reconhece a enorme
deficiência nacional em reservas legais, mas acredita na sua
recomposição. “Se todas as propriedades da Mata Atlântica tivessem
reserva legal, teríamos 20% do bioma preservado. Tem um déficit de
reservas legais preservadas no País. Mas progressivamente vamos
recuperar uma quantidade muito grande de áreas”, disse. Resta menos de
8% de Mata Atlântica no Brasil.
Crimes verdes
As alterações legislativas também encurtam os prazos para recursos
contra autuações, elevam o valor de multas e tipificam outras agressões
contra o meio ambiente. A partir de agora, os recursos de multas
passarão agora por apenas duas instâncias administrativas, no Ibama ou
Instituto Chico Mendes e depois no Conselho Nacional do Meio Ambiente.
Antes, eram quatro etapas. O embate judicial podia durar de cinco a
oito anos. O governo quer reduzi-lo para menos da metade.
Recorrer à Justiça continua valendo, mas a procuradora-geral
do Ibama e ICMBio avisa que o governo fará marcação cerrada. “Recorrer
ao Judiciário é um direito de todos, mas esperamos que a legislação
ambiental seja mais bem cumprida, para a proteção do meio ambiente. O
Ibama atuará cassando liminares”, disse Andréia Vulcanes.
Hoje, apenas 5% das multas aplicadas pelo governo são pagas.
“É uma desmoralização”, disse o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente),
que deu agora para chamar Lula de “ecopresidente”. Metade do dinheiro
segue para o Fundo Nacional do Meio Ambiente e o restante tem destino
definido por ICMBio ou Ibama.
Também pode render multa não dar destino correto a pneus e outras
substâncias tóxicas, liberar odores desagradáveis no ar que se respira,
molestar baleais, golfinhos, peixes-boi, focas e leões-marinhos, além
de não cumprir embargos de equipamentos, propriedades e outros bens.
Aliás, o Ibama passa a ter agora poderes semelhantes aos da Receita
Federal. Depois de todos os recursos judiciais, o órgão poderá leiloar
ou até usar veículos e outros itens apreendidos em fiscalizações. “Vai
acabar com essa moleza. Toras, grãos, gado, tudo poderá ser leiloado.
Isso é mais forte do que multa ambiental”, enfatizou Minc.
Antes, a única opção do Ibama era a doação. Semana que vem a
Universidade de Brasília recebe 30 caminhões com toras apreendidas na
Bahia.
Além disso, empresas que não cansam de acumular multas poderão
ter autorizações de funcionamento cassadas ou suspensas por anos. Outra
novidade é a possível aplicação do valor das multas na recuperação de
áreas degradadas e outras ações, como Educação Ambiental ou manutenção
de centros de recuperação de animais silvestres. Cada caso será julgado
pelos órgãos ambientais. Essa medida está atrelada à redução dos
descontos para pagamento das infrações, de 90% para 40%.
“Quem for picareta e achar que pode enganar todo mundo o tempo todo,
tem que levar bordoada. O País tem que agir com mais seriedade na área
ambiental”, disse Lula. Ao presidente não faltam oportunidades para
colocar tudo isso em prática, como o PAC – Programa de Aceleração do
Crescimento, o combate ao desmatamento na Amazônia e a expansão das
lavouras para biocombustível.
Guarda nacional
O pacote legislativo anunciado hoje também cria um programa de
segurança ambiental, criando a figura do guarda-parques e a guarda
ambiental nacional. Tudo depende de parcerias com estados para que
bombeiros, batalhões ambientais e florestais das polícias militares
ajudem Ibama e ICMBio a conter desmatamentos, queimadas, caça e outras
ilegalidades, dentro e fora de unidades de conservação. Dezesseis
estados já disseram sim aos acordos. Haverá repasse de dinheiro
federal.
“Ou o governo se reeduca para fazer parcerias com estados e
prefeituras ou não se conseguirá preservação ambiental. Fica muito mais
fácil se organizações locais tomarem conta (de algumas ações
ambientais)”, acredita o presidente Lula.
A íntegra do Decreto pode ser acessada abaixo.