
Matéria publicada no O Eco,em 07.03.2008
Com
a bandeira do progresso nas mãos, o presidente Lula já anunciou por aí
que seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vai fazer emergir
dos rios brasileiros mais de 60 novas usinas hidrelétricas. Algumas
delas têm lugar cativo no Sul do país, na bacia do Rio Uruguai. Debaixo
de protestos que remetem ao episódio fraudulento de Barra Grande,
o projeto hidrelétrico de Pai Querê aguarda sua vez para receber a
Licença Prévia (LP) do Ibama, e gera preocupações aos ambientalistas.
Organizações não-governamentais já identificaram falhas no Estudo de
Impacto Ambiental do Projeto (EIA), que está, segundo elas,
subestimando os danos sobre a fauna e a flora.
Não dá para falar de Pai Querê sem citar o caso Barra Grande,
que com o aval do poder público, deixou enormes extensões de matas
nativas debaixo d'água, na divisa de Santa Catarina com Rio Grande do
Sul. Olhando de perto, há muitos pontos em comum entre os projetos, e é
justamente essa similaridade que tem deixado muita gente de cabelo em
pé.
Em 1998, a empresa Engevix entregou ao Ibama o Estudo de Impacto
Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (Eia/Rima) da usina de Barra
Grande. O fato do projeto ter sido resgatado nos baús da ditadura
militar, na década de 70, para ser aplicado 30 anos mais tarde, foi
apenas um detalhe. O governo só foi se dar conta de que os documentos
estavam defasados quando a represa já estava de pé. Quase dez mil
hectares de florestas preservadas, entre elas ricos fragmentos de
Florestas com Araucárias, não haviam sido mencionadas no relatório. “A
maior parte a ser encoberta é constituída de pequenas culturas,
capoeiras ciliares e campos com arvoredos esparsos”, resumia o
documento.
A distração rendeu uma multa de R$ 10 milhões à Engevix e seu
descredenciamento do cadastro de pessoa jurídica do Ibama. Mesmo assim,
o projeto não podia parar. Em 2004, o governo federal, o Ministério
Público e a Baesa (empreendedora de Barra Grande) firmaram um Termo de
Compromisso (TC) cheio de boas intenções ambientais para o futuro. O
documento foi uma espécie de penitência pelo pecado que seria cometido
alguns meses depois, quando a Licença de Operação (LO) de Barra Grande
foi concedida. As águas, então, rolaram, dando um safanão em inúmeras
espécies de fauna e flora locais já ameaçadas de extinção.
Filme repetido
No
mesmo ano em que a farsa de Barra Grande foi descoberta, o Eia/Rima de
Pai Querê chegava à mesa do Ibama pelas mãos da mesma Engevix.
Entidades ambientalistas logo apressaram-se para evitar a repetição do
desastre. Foram à campo e colheram por conta própria dados ambientais
do local onde a barragem seria construída, entre os municípios de Bom
Jesus (RS) e Lages (SC). Enquanto o relatório, produzido pela empresa
durante um ano, apresentou 140 espécies da flora local, em apenas cinco
dias de caminhadas os pesquisadores e estudantes registraram cerca de
250.
“Das duas vezes que estive lá fotografamos o urubu-rei, uma espécie
ameaçada e que está ausente no Eia/Rima”, diz o fotógrafo Adriano
Becker, membro da ONG Núcleo Amigos da Terra. “Ali é o lugar onde ainda
vivem o puma (onça-parda), a jaguatirica, veados e mamíferos de porte
maior que não encontram mais outros lugares para viver. Os bichos estão
tendo que deixar a floresta. Para onde vão?”, questiona Miriam
Prochnow, da Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi).
Segundo informações do Grupo Empresarial Pai Querê – consórcio
responsável pelo empreendimento – a nova hidrelétrica teria uma
barragem de 150 metros de altura e transformaria 80 quilômetros do rio
Pelotas em um lago de mais de seis mil hectares. Professor do
departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), Paulo Brack participou do levantamento feito na área de
influência do empreendimento, e ressalta que ambientalmente o projeto é
inviável. “Naquela área há peixes endêmicos. Com o barramento e a água
parada, a maior parte das espécies não vai sobreviver. Pelo menos duas
dezenas delas poderiam desaparecer para sempre”, prevê. “Usando dados
da própria Engevix, calculamos que cerca de 5 milhões de árvores
ficariam debaixo d'água, sendo pelo menos 180 mil araucárias”.
“Querem construir justamente onde sobraram remanescentes que, para o
bioma Mata Atlântica, são importantíssimos. Perderíamos parte
significativa da Floresta com Araucárias e de campos naturais”, alerta
Miriam, acrescentando que acima do vale a área já está para lá de
descaracterizada pela agricultura e o plantio de espécies florestais
exóticas, como o pinus. “Não precisa ser nenhuma sumidade ou ter QI
muito elevado para concluir que Pai Querê vai acabar com o fluxo gênico
na região”.
Brack lembra que o rio Pelotas-Uruguai já comporta outras três
hidrelétricas em seqüência – Itá, Machadinho e Barra Grande. E
classifica de absurda a idéia de afogar uma das zonas mais preservadas
da Mata Atlântica. “Com a construção de Pai Querê, cerca de 80% do rio
Pelotas ficariam tomados pelos empreendimentos. Já passamos dos
limites. Aquela área vai suportar mais hidrelétricas? ”, pergunta. A técnica da Apremavi engrossa o coro: “É impressionante como quando
um lago enche uma área, a consciência das pessoas também acaba virando
água. As outras hidrelétricas já foram. Mais uma é o tiro de
misericórdia na bacia do Rio Uruguai”.
No comando
Com
o Termo de Compromisso assinado em 2004, ficou combinada a realização
de uma Avaliação Ambiental Integrada (AAI) sobre a bacia do rio
Uruguai. A Licença Prévia de Pai Querê ficou, então, condicionada a
esta análise. Quem se responsabilizou por tocar os trabalhos foi a
Empresa de Pesquisa Energética (EPE), subordinada ao Ministério de
Minas e Energia (MME), que quer fazer o projeto andar. Por licitação,
três empresas ganharam o direito de realizar os estudos: Andrade e
Canellas, Bourscheid e Themag. Todas trabalham para o setor
hidrelétrico.
“A AAI já tem vício de origem, pois não foi feita por órgão
ambiental. A avaliação considerou passível de construção todas as
hidrelétricas projetadas ao longo do rio Pelotas-Uruguai. O rio
original já não teria nada de sua feição natural”, critica Brack.
“Todas essas empresas prestam serviços para hidrelétricas. Não tem como
levar a sério um negócio desses. Está na cara que o resultado da
análise é tendencioso”, reforça Adriano Becker.
Segundo o professor da UFRGS, a EPE não apresentou o relatório final da
análise integrada à população. Mesmo assim, entidades ambientalistas
tiveram acesso a dados parciais e confirmaram o que já se esperava: “A
avaliação se baseou em estudos secundários, trabalhou até com o próprio
Eia/Rima. Não tem base científica. Deveriam ter estudos de campo, dados
primários”, denuncia.
Através de sua assessoria, a EPE ressaltou que a elaboração da
AAI atribuída ao MME está determinada no Termo de Compromisso. A
empresa ratifica que seguiu todas as diretrizes legais, através de
licitação, no processo de escolha das companhias que realizariam os
estudos. E reforçou que a análise não deixa a desejar, pois faz uma
clara “identificação das fragilidades socioambientais” da bacia do rio
Uruguai.
No centro da confusão, o Ibama – que é quem vai bater o martelo da
licença – informou que o processo de licenciamento está sendo retomado
“do zero”. A equipe técnica que vai se debruçar sobre o assunto foi
toda renovada e serão feitas novas audiências públicas. No entanto, os
estudos de impacto ambiental entregues pela Engevix – que teve o
registro cassado pelo próprio Ibama – não serão deixados de lado: vão
servir de base para atualizações.
“Com a retomada do processo de licenciamento ambiental do
empreendimento, foi feita uma nova apresentação do projeto e dos
estudos ambientais realizados no passado aos técnicos do Ibama”,
explica Valter Muchagata, coordenador de Infra-Estrutura de Energia
Elétrica do órgão. Sobre a trava que foi dada à Engevix, ele avisa que
o problema já está resolvido: “O estudos ambientais serão doravante de
responsabilidade direta do Consórcio Empresarial Pai Querê”. As
empresas que fazem parte do Consórcio são CPFL Geração de Energia S/A;
Alcoa Alumínio S/A, DME Energética Ltds; e Votorantim. Esta última,
procurada pela reportagem de O Eco, afirmou, pela assessoria, que não há novidades quanto aos estudos reivindicados pelo Ibama.
Paradoxo
O
Ministério do Meio Ambiente permanece sonolento enquanto as águas de
Pai Querê rolam dentro do governo. E não é por falta de informação.
Quando o Termo de Compromisso originado do caso Barra Grande saiu, o
MMA estava entre os que passaram a caneta no documento. Seu principal
encargo era realizar “estudos para a criação de um corredor ecológico
no rio Pelotas que garanta o fluxo gênico” na região.
O estudo foi feito e a proposta, que se resume à criação de
uma unidade de conservação de proteção integral que passa pelo Pelotas,
está em cima da mesa. “A idéia é que seja criado um Refúgio de Vida
Silvestre formando um corredor que conecte as unidades de conservação
da região”, explica Fábio França, gerente de projetos do Departamento
de Áreas Protegidas do MMA.
Segundo França, a necessidade de se criar uma UC de proteção integral
para a área de Pai Querê já havia sido indicada por estudos anteriores
do próprio ministério. Numa pesquisa visando a identificar e definir
áreas prioritárias para conservação, o corredor Pelotas ganhou carimbo
vermelho. “Por existir remanescentes importantes de Florestas com
Araucárias e campos naturais, ocorrência de diversas espécies endêmicas
etc., a região onde seria construída a usina é definida nos estudos
como de importância e prioridade extremamente altas”, revela.
Mas ainda que tenha essas informações na mão, o Ministério não
demonstra disposição de peitar os colegas de Minas e Energia, e
tampouco o dono das licenças. “O órgão competente para dar a licença é
o Ibama. Eles têm equipe para fazer a correta avaliação de tudo que
está envolvido”, esquiva-se França, deixando escapar sua opinião sobre
o assunto: “Os dois objetivos, de conservar e de construir
hidrelétrica, são absolutamente incompatíveis. Querem fazer outro
barramento num dos poucos trechos originais de Pelotas. É uma coisa ou
outra”.
Sobre a possibilidade de surgir uma UC no meio do caminho de Pai Querê,
o Ibama adianta que isso não seria impedimento para subir a barragem.
“Basta que os órgãos gestores das UC's sejam consultados, no âmbito do
processo de licenciamento ambiental, e que seja levada em consideração
os aspectos ambientais e legais aí implicados”, defende Muchagata, numa
indicação de que a biodiversidade do Pelotas mais uma vez deve dar
lugar a alguns megawatts.