Barra Grande é uma localidade no vale
do rio Pelotas, divisa de Santa Catarina com Rio Grande do Sul, onde a
geografia traça belíssimos desenhos na paisagem formando uma calha de
rio com declives acentuados, cobertos ora por uma exuberante floresta
com araucárias, ora por campos nativos, ora por propriedades agrícolas
que lá se implantaram ao longo do tempo.
As preciosas manchas de Floresta com Araucárias,
formação florestal integrante do Bioma da Mata Atlântica, existentes no
vale do rio Pelotas, estão na área de influência direta da Usina
Hidrelétrica de Barra Grande, cuja barragem, de 190 metros de altura,
foi concluída com base numa fraude. A formação de seu lago inundou uma
área de aproximadamente 8.140 hectares, 90% da qual recoberta por
floresta primária e em diferentes estágios de regeneração e por campos
naturais. Ali, entre a floresta tragada pelas águas, sobrevivia um dos
mais bem preservados e biologicamente ricos fragmentos de Floresta
Ombrófila Mista do Estado de Santa Catarina, em cujas populações de
araucária foram identificados os mais altos índices de variabilidade
genética já verificados em todo o ecossistema.
A obra já estava quase pronta quando o empreendedor – a Energética Barra Grande S/A, cuja atual composição acionária tem a participação das empresas Barra Grande Energia S/A (Begesa), Alcoa Alumínio S/A, Camargo Corrêa, Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e DME Energética Ltda. - solicitou ao Ibama um pedido de supressão das florestas a serem inundadas, quando descobriu-se que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) - documentos necessários para obter a licença de operação do empreendimento –, entregues em 1998 ao Ibama, omitiram a existência desses remanescentes de Floresta com Araucária com importantes populações naturais de espécies ameaçadas de extinção.
Não
é demais lembrar que o processo de licenciamento iniciou-se na época em
que Fernando Henrique Cardoso era Presidente da República. A licença
ambiental prévia (LP) foi concedida em 1999 pela então presidente do
Ibama Marília Marreco e a licença de instalação (LI) foi concedida em
2001 pelo então presidente do Ibama Hamilton Casara.
Em 2003, já no governo Lula, ao analisar o pedido de supressão, o Ibama solicitou um inventário florestal, elaborado e apresentado pelo empreendedor, que mostrou, desta vez, a real situação da cobertura florestal existente na área a ser inundada. Na verdade, o Rima apresentado havia reduzido a cobertura florestal primária da área a ser alagada de 2.077 para 702 hectares, a área de floresta em estágio avançado de regeneração - tratada no documento como um “capoeirão” – de 2.158 para 860 hectares e a área de floresta em estágios médio e inicial de regeneração - tratada apenas como “capoeira” – de 2.415 hectares para apenas 830 hectares.
Além disso, não fazia menção clara sobre os campos naturais, que estão presentes em mais de 1.000 hectares.
Ou
seja: a licença de instalação da obra havia sido concedida pelo próprio
Ibama, em junho de 2001, em pleno vigor da Resolução CONAMA no 278 de
27.05.2001(que protege as espécies ameaçadas de extinção), com base em
um documento que falsificara a real situação dos remanescentes de Mata
Atlântica existentes na área a ser diretamente afetada pelo
reservatório. Omitira, inclusive, a existência de um raro fragmento de
Floresta com Araucária com alto índice de diversidade genética –
informações que, considerando a legislação em vigor, poderiam
inviabilizar a instalação do empreendimento.
Diante deste quadro, as ONGs ambientalistas
realizaram uma visita à região e, constatando a gravidade da situação,
a Federação de Entidades Ecologistas Catarinenses e a Rede de ONGs da
Mata Atlântica impetraram, em setembro de 2004, uma ação civil pública
na Justiça Federal de Florianópolis(SC), na tentativa de reverter esta
absurda situação. Enquanto isso o governo federal assinava com a
empresa um Termo de Compromisso que viabilizou a emissão de uma
autorização de desmatamento pelo atual presidente do IBAMA, Marcus
Barros.
A briga na justiça teve vários episódios, mas como
a liminar nunca foi concedida, o IBAMA acabou emitindo em junho de
2005, a licença de operação da hidrelétrica, sem que a ação tivesse
sido julgada, acabando assim com a esperança de salvar as florestas com
araucárias e também o local das últimas populações da bromélia Dychia
distachya, que desta forma foi extinta da natureza, num episódio que
vai ficar marcado para sempre como a primeira extinção de uma espécie
consentida pelo poder público.
Muitas foram as ações a favor da floresta,
grandemente reforçadas e garantidas pelo apoio recebido do Movimento
dos Atingidos por Barragens - MAB, que já estava lutando para que
fossem garantidos os direitos dos proprietários que seriam expulsos de
suas terras. A partir da ação das ONGs ambientalistas e do MAB o
escândalo chegou ao grande público por meio da imprensa e continua
sendo noticiado nos mais diversos veículos, inclusive após o enchimento
do lago.
Este dossiê reúne artigos e textos sobre o caso da UHE Barra Grande, notícias, documentos, fotografias e vídeos. É também um registro em memória da luta pela preservação das florestas e da população do vale do rio Pelotas. O resgate dos absurdos, mentiras, fraudes e omissões que nortearam o processo de licenciamento da UHE Barra Grande, deve servir de lição a todos, para que casos como este não se repitam no futuro.
Conta a história da hidrelétrica que não viu a floresta.
Texto: Miriam Prochnow