Bugio - Aloata fusca
Serra do Pitoco - Atalanta - SC
Dentro da riquíssima fauna existente na Mata
Atlântica, algumas espécies possuem ampla distribuição, podendo ser
encontradas em outras regiões, como são os casos da onça-pintada,
onça-parda, gatos-do-mato, anta, cateto, queixada, alguns papagaios,
corujas, gaviões e muitos outros. O que mais impressiona, no entanto, é
a enorme quantidade de espécies endêmicas, ou seja, que não podem ser
encontradas em nenhum outro lugar do Planeta. São os casos das 73
espécies de mamíferos, entre elas 21 espécies e subespécies de
primatas. No total, a Mata Atlântica abriga quase mil espécies de aves,
370 espécies de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e cerca de
350 espécies de peixes.
Mas essa grande biodiversidade não faz com que a
situação deixe de ser extremamente grave. A lista das espécies
ameaçadas de extinção, publicada pelo Ibama em 1989, já trazia dados
impressionantes: Das 202 espécies de animais consideradas oficialmente
ameaçadas de extinção no Brasil, 171 eram da Mata Atlântica. A nova
lista, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente em maio de 2003, traz
dados ainda mais alarmantes: O total de espécies ameaçadas, incluindo
peixes e invertebrados aquáticos, subiu para 633, sendo que sete
constam como extintas na natureza.
Segundo levantamento da Conservação Internacional, a
maior parte das espécies da nova lista publicada pelo Ministério do
Meio Ambiente habita a Mata Atlântica. Do total de 265 espécies de
vertebrados ameaçados, 185 ocorrem nesse bioma (69,8%), sendo 100
(37,7%) deles endêmicos. Das 160 aves da relação, 118 (73,7%) ocorrem
nesse bioma, sendo 49 endêmicas. Entre os anfíbios, as 16 espécies
indicadas como ameaçadas são consideradas endêmicas da Mata Atlântica.
Das 69 espécies de mamíferos ameaçados, 38 ocorrem nesse bioma (55%),
sendo 25 endêmicas, como muriqui, também conhecido como mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides), o maior primata do continente americano e o maior mamífero endêmico do território brasileiro.
Entre
as 20 espécies de répteis ameaçadas, 13 ocorrem na Mata Atlântica
(65%), sendo 10 endêmicas, a maioria com ocorrência restrita aos
ambientes de restinga, um dos mais pressionados pela expansão urbana.
Estão nessa categoria espécies como a lagartixa-da-areia (Liolaemus lutzae), a jibóia-de-Cropan (Corallus cropanii) e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea).
A
verdade é que, em um país onde a biodiversidade é pouco conhecida como
o Brasil, há espécies que podem ter sido extintas antes mesmos de serem
catalogadas pelos cientistas e outras que, ao serem descobertas, entram
imediatamente para a trágica lista das ameaçadas de extinção. São os
casos, por exemplo, do mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) e do pássaro bicudinho-do-brejo (Stytalopus acutirostris),
ambos recentemente encontrados por pesquisadores no litoral paranaense,
a menos de 200 quilômetros da cidade de São Paulo, a maior metrópole da
América do Sul.
As espécies da Mata Atlântica também são lembradas nas
análises mundiais de lacunas de proteção da biodiversidade. O estudo
feito pela Conservação Internacional, “Análise Global de Lacunas de
Conservação”, apresentado no V Congresso Mundial de Parques
(Durban/África – 2003), constatou que, no mundo, pelo menos 719
espécies de vertebrados vivem fora dos limites das unidades de
conservação existentes e que outras 943 espécies estão dentro de
reservas tão pequenas que seu habitat não pode ser considerado
efetivamente protegido. Das 719 espécies sem proteção, 140 são
mamíferos, 233 são aves e 346 anfíbios. Das 233 espécies de aves
consideradas sem proteção, boa parte é da Mata Atlântica.
Além da perda de habitat, as espécies da Mata Atlântica
são grandes vítimas do tráfico de animais, comércio ilegal que
movimenta 10 bilhões de dólares no Brasil. Segundo as estimativas, em
cada 10 animais traficados, apenas um resiste às pressões da captura e
cativeiro. Existe ainda o problema de espécies que “invadem” regiões de
onde não são nativas, prejudicando as espécies locais, seja pela
destruição de seu próprio habitat, seja por solturas mal feitas de
animais apreendidos. Um exemplo aconteceu no Parque Estadual da Ilha
Anchieta, em São Paulo, onde foram soltas, pelo governo, em 1983,
várias espécies de animais, entre elas 8 cutias e 5 mico-estrelas, um
sagüi natural de Minas Gerais. Sem predadores e com alimento abundante,
essas espécies se multiplicaram livremente e hoje contam com populações
de 1.160 e 654 indivíduos, respectivamente. Como conseqüência, cerca de
100 espécies de aves, cujos ninhos são predados por esses animais,
foram extintas na ilha.